sábado, 9 de janeiro de 2016

da violência





desculpem-me porque o assunto é pesado, mas tenho necessidade de lhe dar forma aqui.
as palavras não servem só para dizer coisas bonitas e adjectivos floreados à vida.

because shit happens.

nos últimos dias tenho notado que as notícias dão conta de um chorrilho contínuo de vítimas de violência doméstica. A certa altura dei por mim a questionar-me quantas vezes é que a comunicação social estaria a falar da mulher que havia sido decapitada, mas afinal  não era a mesma mulher.
já era outra.
e no dia a seguir mais outra.
e para além do óbvio que choca e que fala por si, revolta-me o facto de vir ao de cima que a vítima fez queixa mais do que uma vez na polícia.
isto inevitavelmente remete-me para, por exemplo, quando há uns bons anos atrás eu tive um fulano em pleno comboio da linha de Sintra, a ser descaradamente um estupor perante a minha pessoa, isto perante uma plateia, não cheia, mas considerável de outros passageiros que ali estavam e ficaram, a fazerem de conta que não viam nem ouviam, à laia do  não é nada connosco, é deixar andar.
felizmente tive a astúcia necessária para que o episódio não me marcasse mais do que esta amarga lembrança.
mas isto para dizer que vivemos numa sociedade que prefere ignorar aquilo que sabe que está a acontecer e que é grave, ao invés de agir de acordo com a sua consciência, ímpeto moral e poderes concedidos.
parece-me que as queixas destas mulheres estarão a ser pouco valorizadas, negligenciadas, caso contrário o desfecho fatídico seria evitado...ou estou errada?
há dias encontrava-me dentro de um prédio, onde proliferavam os berros guturais de um homem.
aquilo não era discussão, era um processo de destilação de ódio. A dada altura ouvi uma ténue voz feminina, a quem aparentemente não era dada permissão para falar mais alto.
era um casal e havia uma criança.
não me venham falar que para uma relação evoluir de forma saudável, é preciso discutir, tal como li algures recentemente.
o que é preciso é conversar, com mais ou menos exaltação, mas é conversar, é argumentar pontos de vista, opiniões, atitudes, é fazer sentir ao outro que consigo estará protegido e não, ameaçado.
o medo de viver corrói a própria vida, e a pessoa em vez de existir, vai sobrevivendo.
a violência doméstica é um cancro da sociedade e muitas vezes as vítimas sobrevivem, incógnitas, através de gritos mudos.
e as pessoas têm de uma vez por todas de parar de pensar que o que é mau só acontece aos outros.

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