quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

la haine est vouée à ce sort lamentable







há um fio de voz rouca que hoje escreve, mas enquanto houver destreza nos dedos, tudo o que há para dizer, consegue ser dito por palavras escritas.
em tom de desabafo, quero que fique aqui registado a estranha realidade paralela na qual me senti inserida, durante os dias da semana passada. Infelizmente esta sensação ocorre, ciclicamente, quando existe um "abalo", ou a nível circunscrito da vida privada, ou a nível mundial, que foi o caso.
creio que a memória mais primária que tenho de  tal sensação de estranheza, foi por altura da guerra do golfo, nos primórdios dos anos 90, em que as imagens televisivas que se transmitiam , davam conta de um mundo aparentemente submerso em noite, em tanques e ataques, tornando o ar quase irrespirável e fazendo-nos questionar se aquele céu que víamos ao sair de casa, poderia ser o mesmo céu que não se deixava ver nas emissões televisivas, encoberto pela guerra.
na semana passada, a acompanhar os acontecimentos trágicos em Paris, revisitei a estranheza dessa sensação .
lembro-me de ter pensado "que raio é isto..? o ano só começou há meia dúzia de dias, e já há tanto de mau para registar?!"
e depois temos as manifestações, a solidariedade, a identificação, os discursos e ainda os bitates, e os disparates. Por que há sempre algo disparatado a dizer, seja face a uma tragédia, seja em relação ao bater de asas de uma borboleta.
para mim, o disparate-mor que se evidenciou, foi o "eles puseram-se a jeito", tristemente proferido por alguém. Eles,os cartoonistas assassinados. Portanto, sempre que alguém se puser a jeito, toma lá balázios. Sim, porque a avaliar pelas páginas diárias do Correio da Manhã, não creio que seja requisito essencial pertencer à al qaeda para se matar.

pela boca morre o peixe.
pelo desenho sarcástico, pelo lápis e pelo papel, mataram-se pessoas. E ainda as outras, sem nada terem a ver com isso. Mas se calhar também se puseram a jeito, pois decidiram ir às compras ao supermercado.
todos os dias, em muitos lugares distintos e em situações díspares, há muita gente a pôr-se a jeito: de levar uma chapada, de ter uma multa, de ouvir um responso, de apanhar uma constipação, de se ver a perder credibilidade perante os outros, etc. etc.
tudo isto,menos tirar a vida alheia.
a imbecilidade é um posto.
e o ódio é o cancro do mundo. 



" o ódio, é um bêbado numa taberna,
   que quanto mais bebeu, mais sede vai tendo
   (...)
   a uma sorte lamentável o ódio está votado:
   a de nunca poder adormecer saciado."

                                                 in "As Flores do Mal", Baudelaire


 

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