sábado, 7 de novembro de 2015

quantos de nós somos números primos




tenho uma inadvertida tendência para histórias que falam de assimetrias, desencontros, desamores, finais pouco esperados, socos no estômago, etc. etc.
confesso que um livro ou filme que encerra com um "e foram todos felizes para sempre", não se perpetua na minha memória por mais de três minutos, o que também não significa que eu disponho de uma veia sádica que me domina ao ponto de querer ver toda a gente infeliz.
nada disso.
trata-se apenas de um gosto pessoal, um tanto atípico talvez, mas a questão é que este tipo de enredos menos felizes, sejam eles puramente ficcionais ou baseados em factos verídicos, podem-me marcar para o resto da vida.
por isso é que quando me falam em grandes filmes, só me vem à cabeça algo que entrou e nunca mais saiu, tal como o 21 Gramas (Sean Penn), Monstro (Charlize Theron), Laranja Mecânica, A Vida é Bela, são apenas alguns exemplos.
e relativamente a livros o cenário não é diferente.
este ano li "A Solidão dos Números Primos"e apesar de não se tratar de uma obra prima a nível literário, não lhe vou esquecer o conteúdo, com toda a certeza.
citando a sinopse do livro, um número primo é inerentemente solitário, só pode ser dividido por si próprio ou por um, nunca se adaptando aos outros números. Não é de aritmética que a história trata, mas das vidas singulares de duas pessoas, que a dada altura se interceptam e acabam por reconhecer muito de si, no outro.
e no entanto, aquilo que poderia ser tão fácil e linear aos olhos das outras pessoas ditas normais, é absolutamente complexo para estas duas, igualmente ímpares.
é que por vezes lemos e vemos coisas que não cumprem apenas a função lúdica de nos entreter, mas que subtilmente nos fazem pensar e compreender outras histórias que acontecem no filme do nosso dia a dia.
e quando assim acontece, é não pensar em demasia no final, seja ele feliz ou não.  


hoje vi o filme, mas escusado será dizer que o livro é bem melhor.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

tenho pena

este Portugal é lindo, mas quem o vai "dominando" fá-lo mediante desígnios suspeitos, injustos e dúbios para os outros que vão "sendo dominados".
e cada dia é uma nova. Por exemplo, e trazendo à tona uma recente, temos a 'bora lá ser meiguinho para o Ricardo Salgado, tadinho, vamos perdoar-lhe milhões e atenuar-lhe a pena, já que o que ele apenas fez, foi tirar o trabalho de uma vida em poupanças, a muitos que deixaram de perceber o sentido de viver com dignidade.
Infelizmente, o bombardeio deste tipo notícias desafiadoras à manutenção de uma conduta cívica e moral, já é uma constante demorada no nosso panorama nacional.
tenho pena. Muita pena, enquanto cidadã com brio no seu país.
e o pior é que, equacionando a hipótese deste tipo de cenários sempre ter existido (talvez em número mais reduzido), mas que muito provavelmente se desenrolava de forma súbtil, qual aragem ténue , agora é tudo feito em cima da ribalta escancarada dos media, com direito a holofotes, altifalantes e amplificadores de som topo de gama.
Ora, este aparato é bom para o povo estar a par de tudo, mas é muito mau para o povo se sentir ainda mais injustiçado.

tenho pena.

pena que nos mostrem a nós, zé povinho, que se não fossemos , nem povinho, talvez nos safássemos.
acredito que haja e tenha havido muito boa gente com merecido crédito e valor reconhecido, a palmilhar o desassossego da luta pela vida, através do seu próprio trabalho, engenho e mérito.
mas caramba, não é preciso arrasar a boa vontade, o empenho, a inteligência e a capacidade de quem luta luta luta e tem a pouca sorte de o não conseguir assim, única e exclusivamente através da sua luta, do seu trabalho.
e assim é fácil atingir uma coisa chamada desespero
Acho que o Ricardo Salgado não saberá o que é isso.
que se lixe o ser-se honesto e pródigo em civismo. 
tenho uma filha, a quem tenho vindo a incutir de uma forma tão leve quanto uma criança merece, o espírito de integridade, para que se sirva disso como algo natural e espontâneo da sua pessoa, pela vida fora, porque é bom para ela e assim o será para os outros.

E depois o palco diário da vida é outro, descaracterizado.

tenho pena.



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

separação do trigo e do joio com aniversário à mistura

a última semana foi aquela que albergou o penúltimo dia de Outubro, vulgo, o dia do meu aniversário.
como já é tradição, na véspera mantive a celebração feminina da praxe e de facto, posso dizer que para além da tradição ainda ser o que era, está ainda melhor.
não sei se é da idade estar mais apurada, das prioridades que se (re)definem, do sentido de humor mais rebuscado, da serenidade que se instala imperativamente, ou...provavelmente será por tudo isto ao mesmo tempo e outros ingredientes mais.
seja como for, o factor principal está lá sempre, que é um mais do que razoável nível de confiança, respeito e amizade.
este ano corrente tem sido difícil, mas simultaneamente tem sido pródigo em mostrar-me aquilo e quem realmente interessa na minha vida, porque as amizades não se medem pelos cálices de vinho que temos na mão, nem pelas conversas anedóticas que se contam entre garfadas partilhadas à mesa. Também os tive, desses tais amigos que só o eram pelo bom da coisa. Não estou interessada em tê-los mais. Tal como não estou interessada em ser bombardeada pelo que me faz mal. Pelo que me faz pesar culpas que não são minhas. Pelo que me faz descer, em vez de subir.
e não sei se será particularmente por ter acabado de fazer uma idade com um 9 , que é o meu número companheiro de vida, mas o que é certo é que cheguei definitivamente a um momento de ponderações que implicam ascensão, e não declínio.
uma dessas resoluções trata-se do sábio manuseamento do não. Sempre tive sérias dificuldades em dizê-lo, agi muitas vezes em prol de um sim que me prejudicava, só para não ferir susceptibilidades.
mas o problema é que as susceptibilidades ferem-se na mesma. E a maior ferida é a de quem quebra e diz sim, quando deveria dizer não.
o maior problema da vida é mergulhar de cabeça e começares a ver que a água que cobre o fundo não será suficiente para te amparar a queda. Nesses milésimos de segundo que te restam até bateres lá em baixo e veres o fim, só tens três alternativas:

*fechas os olhos e deixas-te ir
*visualizas em flashes a tua memory lane 
*convertes o teu corpo numa série de acrobacias comandadas pelo teu engenho e cabeça, de forma a escapares-te daquele fim iminente

e eu quero fazer da terceira hipótese, sempre a única opção.
portanto, esta conversa toda vem a propósito das amizades, que foram por si só, um ponto alto do meu último ano.
reunir pessoas à mesa, sem que haja um rastilho concreto de amizade que as una, pouco significado tem para mim.
e posso dizer que no meu mergulho de cabeça, estas pessoas que se sentaram à minha mesa de aniversário, têm sido autênticas acrobacias de salvação da minha pessoa. É que às vezes também precisamos dos outros, para conseguirmos chegar até nós.

um grande brinde à amizade e a tudo aquilo que verdadeiramente faz sentido...! 


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

sado-masoquismo

por vezes, mais não somos do que um disco riscado, forçando a todo o custo o deslizar inflexível de uma agulha que teima em distorcer a sonoridade.

por vezes a vida reveste-se da secura de um som que não queremos ouvir
e os nossos dedos assumem a fisionomia disléxica, diante um piano, no qual insistem em tocar na mesma tecla.

over and over again.

não estamos para melodias chorosas, nem compassos transgressores aos hinos triunfantes.

estamos , para fazermos a música que queremos ouvir.
para dançarmos ao som daquilo que nos exalta a vida, saída do recôndito das entranhas
para fazer dos risos diários do que nos faz bem, e de quem nos quer bem, a essência primária do ritmo que nos faz viver.

nem que a tua música mais não seja, do que a paz das coisas quietas.

do que a paz.


 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Chamem-lhe azedume feminista

Muito provavelmente habita uma acérrima feminista dentro de mim.
E não é coisa só de agora.
Li a crónica da Clara Ferreira Alves, no Expresso desta semana e de facto, não houve uma vírgula da qual tivesse discordado.
Porque há coisas que dão muito que pensar e há coisas que são teoria, balelas atiradas ao vento, porque quando vem a questão prática, o caso muda de figura.
Nesse texto, pode-se ler tantas coisas verificadas na prática realística do quotidiano, tais como o facto da "... mulher ser raramente levada a sério, é mais escrutinada, discriminada, combatida, facilmente eliminada (...) uma mulher pode ser feia, velha, maluca, enquanto que um homem pode ser interessante, maduro, inteligente.
Um canalha torna-se um tipo complicado.
Numa lista de prestígio de 100 pessoas, 90 são homens e o resto é quota.
(...)sou contra as quotas e a favor do mérito. As mulheres precisam de autoconfiança e tempo livre, precisam de uma vida intelectual, que a maternidade, a dependência financeira e a vida doméstica não autorizam.
As mulheres têm instintivamente medo da ascensão porque sabem que implica um cortejo de insultos e ofensas físicas e morais, propagadas por mulheres que odeiam as mulheres e por homens que não respeitam as mulheres.  (...) em compensação, semana sim, semana não, uma mulher é assassinada em Portugal. Nessas notícias não falta o elemento feminino."   
Observo demasiado o que se passa à minha volta, por vezes sem ser necessário o mínimo esforço de compreensão ou fina astúcia. Trata-se de situações, umas mais banais do que outras, que instantaneamente revelam o lado negro da fragilidade.
E em muitos casos não se tratará necessariamente do aspecto frágil de um carácter feminino que se subjuga e resiste a uma intempérie agressiva de situações, mas sim de uma sensibilidade extrema, de um sentimento de vergonha tal, que conseguem converter essas rudes ocorrências, em poeiras atiradas para debaixo do tapete. Resta saber por quanto tempo.
Essa opressão, esse trato, essa desconsideração são eles sim, o lixo emergente de uma vida naufragada.

E respeito.
Respeito precisa-se.





                              
     
     
 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

a supremacia do dom

às vezes ouço pessoas a dizerem-me que tenho dom para isto ou aquilo.
fico contente, claro, agradeço, mas questiono-me de mim para mim, sobre toda a complexidade que o substantivo abarca. Que não se confunda com o "ter-se jeito para", porque a meu ver, ter-se jeito é uma coisa e ter um dom será outra : o que as distingue é a grandiosidade dos efeitos que provocam.

quando o resultado daquilo que é feito, me transmite essa exímia sensação de grandiosidade, aí eu admito que estou perante alguém que tem um dom.
isto tudo para dizer que: há uns tempos atrás, encontrei a estrutura de uma cadeira no lixo. Bastante maltratada, mas ainda assim deixava antever o quão bonita foi, numa juventude em que ainda era cadeira útil e atraente.
tenho jeito para conseguir ver, além daquilo que os meus olhos me transmitem.
e ainda bem.
tal como ainda bem que existem pessoas que conseguem dar excelentes segundas oportunidades de vida, àquilo que outros não souberam dar o merecido valor.
não tenho fotografias do antes, mas acreditem que era muito mau.
agora o que me interessa é aproveitar o depois. E o depois, lá está, transmite-me a tal grandiosidade que só os dons conseguem transmitir.






 o dom de transformar o lixo de uns, nos tesouros de outros.
Por isso, deixo aqui a dica, pessoas de Lisboa, arredores ( e não só), se querem ver mobiliário antigo a ganhar uma nova vida, é este o sítio, as mãos, a delicadeza e, lá está, o dom. 




      

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

o outono do meu contentamento


neste momento a casa desnuda-se em silêncios e o tempo é outro, imperativamente.
o outono está para mim, aquilo que o verão é para tantos outros.
porque eu sou isto: a serenidade das folhas que caem no chão, a aragem suave que nos toca o rosto ao de leve, como se num trejeito discreto dissesse "estou aqui".
há uma melancolia indelével em todos os outonos de uma vida.
há inevitavelmente um regresso aos doces momentos de infância, lugares inapagáveis de tempos perdidos no tempo.
queria pernoitar durante horas a fio, por estes outonos da memória, sem a ânsia de querer tornar à realidade.

neste momento a casa desnuda-se em silêncios, e há algo cá dentro que se reveste de mantos auspiciosos de dias vindouros.

oxalá não me engane.