terça-feira, 18 de novembro de 2014

essenciais

hoje o dia acordou para nós, com palavras doces e gatafunhos no orvalho da manhã.

há pouca coisa melhor do que isto.

definitivamente o Outono mora aqui, com os seus brandos e ternos costumes.







e agora vou falar-vos de um livro que estou a ler (quase quase no fim) e que entrou já para o rol daqueles que nos soqueiam a seco no estômago, sem misericórdia:
de nome original "Tiger tiger" , este é o relato verídico de uma mulher que, quando criança foi deliberadamente íntima de um homem, transpondo aos olhos de nós, leitores, um universo chocante ,
tragicamente real e que simultâneamente, faz com que nós, leitores - pais , estejamos inevitavelmente atentos a todos os pormenores, todos os sinais, porque aos olhos de uma criança, o abominável homem das neves pode facilmente ser o anão simpático da Branca de Neve.
este livro foi uma boa descoberta e surpresa, surpresa essa que me foi dada a conhecer por uma grandessíssima amiga, agora pelo meu aniversário, e que no momento em que mo ofereceu, advertiu-me para o seu duro conteúdo. Foi da maneira que, deixando uns outros tantos (ainda) em espera na estante, me atirei a ele, ao livro.






entretanto, a miúda cá de casa já anda a falar no pai natal e afins.
e estamos cá para lhe satisfazermos os desejos, por isso, já andamos em pré-preparações natalícias cá em casa .

 

 e tanto que há de bom nisto tudo.






terça-feira, 11 de novembro de 2014

keep calm and seize the day

funciona como uma espécie de baptismo ( baPtismo, jamais escreverei à luz do novo acordo ortográfico,prefiro caminhar na sombra da antiga forma de escrita.) nós, sempre que pudermos, fazermos aquilo que realmente nos faz sentir vivos.
obviamente que não é a acordar ainda antes da própria manhã alvorecer, nem a meter-me no carro direccionado a um trabalho que mais não é do que um meio para atingir um fim específico - vulgo, final do mês - , nem a ir ao supermercado, que encontro esse dom baptismal.
porque todos os dias é mais do mesmo e o mesmo é elevado ao cubo, por sua vez, enésimas vezes.

portanto, chega o dia de folga e:
*espreguiço o corpo acordado, cedo sim, mas um cedo aceitável, natural e limpo de despertadores
*sorvo de imediato a sonoridade deliciosa do "bom dia mamã!" que funciona como um elixir revigorante para o resto do dia
*quando me encontro numa das melhores companhias do mundo (a minha),  arrojo-me ( sem tempos, sem ritmos demarcados e sem imposições), aos pequenos mundos, que fazem tanto por mim.
nada sou sem eles.
e eles sempre ali, à minha espera.
à espera de que eu faça sempre do meu próprio mundo, um lugar melhor para viver, todos os dias.

pedirei assim tanto, contentando-me no entanto com tão pouco...?







segunda-feira, 10 de novembro de 2014

as pessoas



A Crueldade tem humano coração
Tem a Intolerância, humano rosto
O Terror, a humana forma
O Secretismo, humano traje posto.

O Traje Humano é ferro forjado,
A Humana Forma, é forja incendiada
O Humano Rosto, fornalha bem selada,
O Humano Coração, abismo seu esfaimado.

in, "Uma Imagem Divina", William Blake

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

os parêntesis essenciais








e pronto. acabaram-se as festividades e os 38 já cá moram.
este ano, o convívio feminino da praxe veio a preceito,tal como pedia o convite e fomos miúdas bem dispostas, flores,muitos risos, pés descalços, música revivalista, boa comida e óptima bebida, durante umas horas que são sempre muito bem passadas.

a miúda pequena cá de casa adorou cantar os parabéns e mais uma vez se encantou com todo o semblante com o qual se vestem os festejos de aniversários,  e no entusiasmo dela, revisitei o meu próprio entusiasmo que enverguei durante anos consecutivos da minha vida, mas que agora sinto que já está muito esmorecido.
agora o que eu sinto dentro de mim é uma necessidade urgente de paz, de sossego, de silêncio e claro está que estes 3 elementos são pouco coniventes com "festas". Daí também o tal esmorecimento.

o que está completamente aliado a esta minha necessidade, é o sítio que escolhi para passar os  primeiros dias do meu novo ano.


Sintra está nos lugares primordiais do meu reportório privado de felicidade.
tenho a certeza absoluta que acaso eu conhecesse infinitos lugares do mundo, retornava sempre a esta vila situada no limbo entre a terra e o paraíso, suspensa sobre a natureza e que me alberga o espírito numa serenidade absoluta.
durante anos, morei muito perto, mas não o suficientemente perto para lhe sentir a sua essência esmagadoramente bela, todos os dias, a cada minuto.
e no entanto, de cada vez que admiro de perto a Serra, observo aquelas escarpas plenas de arvoredo selvagem que aparentam esconder segredos milenares, torno sempre ao lugar estranho de que tudo aquilo me é visceralmente familiar.
por tudo isto, elegi Sintra, paixão eterna, para  respirar e inclusivé pernoitar, nestes primeiros dias dos meus 38 anos.
e o que retenho cá dentro dessa experiência, é um tanto dificil de verbalizar,porque há coisas que não se verbalizam.

sentem-se.    















sábado, 25 de outubro de 2014

it's my party

não vou aborrecer os olhos de ninguém, com mais palavras azedas relativas ao cansaço e coisas que tais.
até a mim já me cansa esse cansaço.
mas deixem-me só ( e a propósito do mesmo) fazer aqui um pequeno alinhavo:
quando começou o mês de Outubro, pensei "jááááá"???!!!" . Sim, "já".
, porque ainda ontem estava eu a cantar e a fazer efusivos brindes ao novo ano de 2014 que acabava de começar ... e estamos a dois passos da mesma festividade (Dezembro já se avista) ; , porque esta sucessão de correrias que compõem o dia a dia, aparentam programarem-se contra a minha vontade, e assumem um turbo pujante que nos levam de Janeiro a Dezembro "num tirinho" ; , porque Outubro é mais um aniversário da minha pessoa e se durante toda a minha vida vibrava com isto, agora, digamos que não me apetece muito (podemos se faz favor voltar a Maio,por exemplo, e estagnar aí um bocadinho...?? siim??)
e não me apetece porque: se não caminhamos em direcção à juventude eterna, então ao passar a barreira dos 35 surge um alerta, uma sensação estranha de socorro-os-40-aproximam-se  .
e lá está, não me apetece.
e como não me estava a apetecer , a minha ideia inicial seria pura e simplesmente, zarpar daqui para fora, nós,o small gang cá de casa, sem ter trabalho nenhum acrescido, apenas descansar um bocado,sorrir, tirar muitas fotografias e ser servida.
mas depois vieram as vozes conselheiras, que aliadas a um brainstorming consciencioso, me fizeram ver que há coisas pelas quais vale a pena sempre o esforço.
portanto, distante já da vontade que me levava a festejar o meu aniversário a la casamento cigano, quero manter a tradição de abrir a porta da minha casa, a meia dúzia de miúdas que já tomam esta noite de convívio praticamente como certa, ano após ano.
provavelmente aos 58 ainda terei ainda vontade de o fazer, no fundo eu sei que não haverá cansaço que se sobreponha a isso.
e depois, aí sim, zarpamos.




quarta-feira, 22 de outubro de 2014

a maior parte das horas são estúpidas

quando me ocorre contabilizar (hipoteticamente, claro) o número de horas que: passo em filas de trânsito, em filas de supermercado, em espera numa sala com uma senha na mão ( atenta ao visor numérico, como se a persistência do meu olhar agilizasse a sequência dos números), ao telefone, a ouvir as 4 estações de Vivaldi, até que finalmente te atendam do outro lado da linha e concluas que afinal tens de falar com outra pessoa e te vejas de novo a ouvir uma outra sinfonia.............................................................................................................................e etc etc etc
penso assim:

ok. a maior parte das horas são estúpidas.

e quando assim penso, é porque sou eu, no meu pior; é porque sou eu de paciência acabada, esgotada, completamente aniquilada.
há dias, muitos deles até consecutivos, em que eu sou assim, desde as seis horas da manhã, até às horas, sejam elas quais forem, em que me deito.
e acreditem que não há pessoa a quem eu enerve mais, quando estou assim, do que eu mesma.
porque eu mesma não tolero gente constantemente queixosa, desgostosa, impaciente e intolerante.
e aí eu preciso do antídoto.
e os antídotos são como as pessoas: variam.
o meu eu sei qual é. é o meu Santo Graal. é o fim do arco íris.
mas vou lá chegar.

enquanto isso, e lembrando-me inevitavelmente das palavras do fantástico Oscar Wilde, que dizia qualquer coisa como
 adoro os pequenos prazeres: são o imediato refúgio dos problemas complexos
vou olhando à minha volta e vou tentando perceber de onde posso espremer os limões que a vida me vai dando. 




terça-feira, 7 de outubro de 2014

para onde vão os guarda-chuvas



 
escrever sobre guarda-chuvas, num dia como o de hoje, é calçar uma luva na perfeição.
um dos livros que mais me marcou e com toda a certeza, nunca o irei esquecer, é sem dúvida o "Para onde vão os guarda-chuvas", do Afonso Cruz, em que a sublime simplicidade da linguagem e da própria narrativa, seduz o leitor, perante a tirania de um Islão cruel.
o texto é por si só, um pedaço agridoce absolutamente delicioso, onde não há contos de fadas e a dura realidade é trocada "em miúdos".
há várias passagens do livro que ficam para a vida e por isso, fiz questão de as anotar à parte, para que,sempre que me apeteça, as recorde.
uma dessas inúmeras passagens é esta. fiquem com ela, anotem-na e alimentem-se dela sempre.

Os dias que compõem a nossa vida, são gerados dentro de nós, como uma gravidez.
Quando desejamos alguma coisa que está fora do presente, ou seja, quando desejamos o futuro, isso faz nascer o embrião do dia seguinte...e esse dia vai crescendo dentro de nós, alimentado pelas recordações e pelo desejo de viver. Umas quantas horas depois, esse dia nasce.
E o mesmo sucederá com todos os dias que nos farão velhos, até chegar a altura em que nós, gastos, sem desejo, nos esqueceremos de desejar o futuro e o dia seguinte morrerá dentro da nossa barriga.

e em dia de chuva e de folga, cuja noite se auspicia ainda melhor, a banda sonora é esta, provavelmente a melhor de todos os tempos, de um dos meus filmes de sempre :