quarta-feira, 22 de outubro de 2014

a maior parte das horas são estúpidas

quando me ocorre contabilizar (hipoteticamente, claro) o número de horas que: passo em filas de trânsito, em filas de supermercado, em espera numa sala com uma senha na mão ( atenta ao visor numérico, como se a persistência do meu olhar agilizasse a sequência dos números), ao telefone, a ouvir as 4 estações de Vivaldi, até que finalmente te atendam do outro lado da linha e concluas que afinal tens de falar com outra pessoa e te vejas de novo a ouvir uma outra sinfonia.............................................................................................................................e etc etc etc
penso assim:

ok. a maior parte das horas são estúpidas.

e quando assim penso, é porque sou eu, no meu pior; é porque sou eu de paciência acabada, esgotada, completamente aniquilada.
há dias, muitos deles até consecutivos, em que eu sou assim, desde as seis horas da manhã, até às horas, sejam elas quais forem, em que me deito.
e acreditem que não há pessoa a quem eu enerve mais, quando estou assim, do que eu mesma.
porque eu mesma não tolero gente constantemente queixosa, desgostosa, impaciente e intolerante.
e aí eu preciso do antídoto.
e os antídotos são como as pessoas: variam.
o meu eu sei qual é. é o meu Santo Graal. é o fim do arco íris.
mas vou lá chegar.

enquanto isso, e lembrando-me inevitavelmente das palavras do fantástico Oscar Wilde, que dizia qualquer coisa como
 adoro os pequenos prazeres: são o imediato refúgio dos problemas complexos
vou olhando à minha volta e vou tentando perceber de onde posso espremer os limões que a vida me vai dando. 




terça-feira, 7 de outubro de 2014

para onde vão os guarda-chuvas



 
escrever sobre guarda-chuvas, num dia como o de hoje, é calçar uma luva na perfeição.
um dos livros que mais me marcou e com toda a certeza, nunca o irei esquecer, é sem dúvida o "Para onde vão os guarda-chuvas", do Afonso Cruz, em que a sublime simplicidade da linguagem e da própria narrativa, seduz o leitor, perante a tirania de um Islão cruel.
o texto é por si só, um pedaço agridoce absolutamente delicioso, onde não há contos de fadas e a dura realidade é trocada "em miúdos".
há várias passagens do livro que ficam para a vida e por isso, fiz questão de as anotar à parte, para que,sempre que me apeteça, as recorde.
uma dessas inúmeras passagens é esta. fiquem com ela, anotem-na e alimentem-se dela sempre.

Os dias que compõem a nossa vida, são gerados dentro de nós, como uma gravidez.
Quando desejamos alguma coisa que está fora do presente, ou seja, quando desejamos o futuro, isso faz nascer o embrião do dia seguinte...e esse dia vai crescendo dentro de nós, alimentado pelas recordações e pelo desejo de viver. Umas quantas horas depois, esse dia nasce.
E o mesmo sucederá com todos os dias que nos farão velhos, até chegar a altura em que nós, gastos, sem desejo, nos esqueceremos de desejar o futuro e o dia seguinte morrerá dentro da nossa barriga.

e em dia de chuva e de folga, cuja noite se auspicia ainda melhor, a banda sonora é esta, provavelmente a melhor de todos os tempos, de um dos meus filmes de sempre :










quarta-feira, 1 de outubro de 2014

há coisas um bocadinho dificeís de definir

Se eu não tivesse uma pequena família a meu cargo, se não tivesse uma filha, contas para pagar e todos os custos/responsabilidades que isso implica, sem dúvida alguma que eu seria pessoa para mandar tudo às batatas e ir para longe. Já fiz isso uma vez, mas lá está, as circunstâncias eram outras.
A nível laboral, não queria ter ordenado chorudo, usar roupas impecavelmente caras ou que me fosse oferecida uma grande bomba de 4 rodas a meus préstimos.
Só queria ser muito feliz naquilo que fazia.
Só.

portanto, tendo em conta a minha paixão por livros e bibliotecas bonitas, muito provavelmente,( se eu não tivesse uma pequena família a meu cargo, se não tivesse uma filha, contas para pagar e todos os custos/responsabilidades que isso implica) eu dava uma fugida até Paris e tentava a sorte a trabalhar aqui:







     
*imagens via google

porque só de olhar para isto, as pupilas dos meus olhos rejubilam felicidade.

domingo, 28 de setembro de 2014

chère Brigitte





esta paixão já é antiga.
graças a ela desenvolvi muito cedo, uma relativamente boa fluência em francês, já que foram centenas as páginas lidas nesta língua.
admiro-lhe o espírito livre, quase animal; admiro-lhe a doutrina de cabelos ao vento; a postura "anti plásticas" e "anti convenções"; admiro-lhe a joie de vivre com a natureza ; admiro-lhe a beleza felina e a resposta pronta, sem receios.
faz hoje 80 anos e há mais de 20 aconteceu o coup de foudre, vulgo, paixão à primeira vista,como praticamente tudo aquilo por que/quem me apaixono na vida.

brigitte,tal como tu me escreveste num postal, num dos meus memoráveis aniversários ,


  Je vous serre aussi sur mon coeur.






sexta-feira, 26 de setembro de 2014

da integridade. Ou falta dela.

deixem-me escrever hoje sobre a integridade.
isto é, deixem-me humildemente dissertar (mais uma vez) sobre aquela mui nobre e grandiosa qualidade de colocarmo-nos no lugar dos outros, sobre aquela seca e transparente sensação de que não gostaríamos de todo que estivessem a fazer connosco, aquilo que estamos a fazer com terceiros.
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esperem.
estava aqui a pensar e concluo que de facto é muito difícil escrever sobre quimeras.
o texto que afinal tenho para escrever sobre a integridade humana, resume-se às 4 linhas escritas acima.
escrever sobre a falta dessa mesma integridade, por outro lado, já me roubaria horas do meu dia e lá está, não tenho tempo. Para isso, já me bastam os minutos desperdiçados, em que,inevitavelmente, estou entregue aos não íntegros desta vida.

é nestas alturas que me lembro bastante dele.



*nem a propósito, hoje encontrei a minha agenda para 2015.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

a bipolaridade dos dias



Os dias têm-se registado com uma certa bipolaridade metereológica, o que me parece, muito francamente, pouco escandaloso para um mês de Setembro, com o Outono já à espreita.
Agrada-me. Desculpem lá veraneantes, mas não suporto o calor que me dá vontade de andar com um chuveiro portátil quase constantemente em cima do corpo. Tem as suas coisas boas,tem sim senhor, mas sempre fui rapariga do frio.
Foram bons os dias de praia, de passeios ao pé do mar, de jantares tardios e braços despidos na esplanada nocturna, das luas cheias a vestirem um céu descaradamente limpo, em noites quentes e convidativas a tudo, menos dormir e sossegar. Tudo isto foi bom, foi Verão. Agora é tempo de jantares regados a boa conversa, mas em casa; é tempo de aninhar no sofá e enfiar-me dentro das quase 900 páginas que comecei a ler; é tempo de fazer uma boa análise ao Meo videoclube e, last but not least ,pôr as mãos, a tesoura, os alfinetes e a agulha nos tecidos, acrescentar a tudo isto uma dose para lá de q.b. de criatividade e fazer acontecer as coisas.




    Para as coisas acontecerem:
    *é preciso a mente e o corpo igualmente acontecerem numa esfera de movimento, resiliência,
    motivação, criando uma dinâmica empreendedora que pode gerar muita coisa, menos a sensação
    de arrependimento.*
    Por isso, seja Verão ou Inverno, carpe diem, todos os dias.
 





terça-feira, 16 de setembro de 2014

as intermitências da vida







Agora, pelo seu aniversário, comprámos-lhe uma bicicleta.
Uma bicicleta que veio com um pacote de recordações instantâneas, as quais já um tanto diluídas na minha memory lane, mas que num ápice ( os prodígios inigualáveis da mente humana ) invadiram o meu presente.
A menina que seguia em cima dela, em curvas ondulantes e desajeitadas, era eu, amparada cuidadosamente pela mão firme e consciente do meu pai, que simultaneamente me dava as instruções indicadas para que eu atinasse com os pedais.
Por instantes, aquele pacote de recordações instantâneas que veio com a bicicleta da minha filha, fez-me sentir por inteiro um passado diluído já em 30 anos de vivências.
Por instantes o meu pai ainda estava comigo, inteiro, sem doenças a trespassá-lo, a ele, e a mim, cujo trespasse me fez rasgos para sempre.
Por instantes, fui eu, a menina do meu pai, a aprender a andar de bicicleta.