terça-feira, 16 de setembro de 2014

as intermitências da vida







Agora, pelo seu aniversário, comprámos-lhe uma bicicleta.
Uma bicicleta que veio com um pacote de recordações instantâneas, as quais já um tanto diluídas na minha memory lane, mas que num ápice ( os prodígios inigualáveis da mente humana ) invadiram o meu presente.
A menina que seguia em cima dela, em curvas ondulantes e desajeitadas, era eu, amparada cuidadosamente pela mão firme e consciente do meu pai, que simultaneamente me dava as instruções indicadas para que eu atinasse com os pedais.
Por instantes, aquele pacote de recordações instantâneas que veio com a bicicleta da minha filha, fez-me sentir por inteiro um passado diluído já em 30 anos de vivências.
Por instantes o meu pai ainda estava comigo, inteiro, sem doenças a trespassá-lo, a ele, e a mim, cujo trespasse me fez rasgos para sempre.
Por instantes, fui eu, a menina do meu pai, a aprender a andar de bicicleta.  

terça-feira, 9 de setembro de 2014

reservatório dos melhores momentos

Muitas vezes falamos os dois sobre como é quase impossível conceber uma vida A.L. (antes Leonor).
Porque ela já é um tanto imenso de nós, que parece, de alguma forma, nunca termos existido, antes de ela acontecer nas nossas vidas.
Com toda a certeza , renascemos ou renovámo-nos há 3 anos atrás, quando ela nasceu.
Esta fase é muito especial (ok,são todas) porque é quando ela começa a estabelecer (uma espécie de) conversas, quando começa realmente a perceber o que é um aniversário, porque é que há uma festa, porque é recompensada com um presente, porque é que existe uma repreensão,porque é preciso fazer as coisas "assim" e não "assado" e, acima de tudo, porque ela todos os dias expressa o seu amor com autênticas declarações de "gosto de ti!", acompanhadas pelo melhor abraço desta vida.
É tudo tão belo e a fase de encantamento é tão absoluta, que queremos "congelar" tudo isto, de forma a viver nesta redoma de doces momentos, o resto de toda a nossa existência.
E foi isso que fizemos nestes últimos dias.
Fomos para outras paragens, vimos um outro céu, outros mares, pisámos chão novo ( e também do antigo, que eu gosto), ignorámos os relógios, desprezámos os minutos que se esvaem e fizemos do rir, a nossa prática diária. Foi pouco tempo, mas como eu costumo dizer, estes momentos já ninguém nos tira.
Foram congelados para sempre.







 
   

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

coisas (boas) que me roubam tempo

No meu caso, em particular, o único malefício da internet, é a quantidade de minutos que poderia ( e às vezes estou) estar "envolvida" com ela. É um tempo inerte, a nível motor, mas pode ser um tempo absolutamente bem empregue e sedutor, na medida em que tomo conhecimento de coisas, de pessoas, de vidas, que entraram num ápice e muito dificilmente sairão do meu mundo de referências.
O instagram é o meu mais recente vício. Ali encontro fotografias abismais, quer seja pelo cenário em si, quer seja pela técnica, quer seja pelo filtro, ou, seja até pela sua simplicidade, tão pura e ao mesmo tempo,tão irresistível. Essas fotografias que me conquistam de forma espontânea, muitas vezes levam-me a "entrar" de certa maneira, no mundo de quem está por detrás da câmara de quem as tira.
E senhores, que vidas bonitas.
Não são as vidas de estrelato e ostentação, as que falo, porque nessas,pouco ou nada há que me interesse.
As pessoas que me apaixonam, são as que por sua vez transparecem ser apaixonadas pela vida simples e terrena, que encontram e desfrutam da felicidade nas mais pequenas coisas, e da mais pequena coisa, parecem fazer uma obra de arte.
Como eu amo pessoas assim.
Hoje o instagram (lá está!) levou-me ao mundo de mais uma pessoa assim e daí, ao blogue, foi um ligeiro passo.
Apaixonei-me por este mundo . Vão lá ver e se forem como eu, apaixonam-se também.






 
all photo credits belongs to Michelle, from www.danceypantsdisco.com

terça-feira, 26 de agosto de 2014

aprendizagem ou auto-controlo




Absolute Beginners , David Bowie

ou uma das minhas preferidas, de todos os tempos.


Quando em pequena ouvia os mais velhos a queixarem-se de que a vida era sempre a correr, não estava de acordo com eles. Claro que eu na altura, do alto da ingenuidade característica de criança, considerava que o tempo que a vida nos dava, chegava e sobrava para tudo, por vezes até se tinha de pensar no que fazer para o ocupar.
Saudades dessa inconsciência infantil.
Agora compreendo com todas as letras, com todos os poros, a razão desse queixume adulto, que sempre foi uma eterna consumição para os que me rodeavam. E ainda o é, só que agora também eu sou um deles e  faço igualmente parte desse chorinho.
Tenho um defeito terrível, que é o "síndrome da impaciência, causado pelo tempo perdido", ou seja, se estiver mais do que 5 minutos numa fila de caixa de supermercado, multibanco, ou algo do género, começo literalmente com um nervoso miudinho que me consome desde a ponta dos dedos dos pés, até à cabeça. Se nesses minutos que estiver à espera, puder aproveitar o meu tão precioso e escasso tempo, como por exemplo a sacar do livro que tenho na mala, ou a pensar em mil e uma coisas que tenho/quero fazer, já não tomarei esse tempo de espera tão perdido assim...o problema é quando sou tão somente consumida por essa sensação de insuportabilidade nevrálgica e não há leitura ou pensamento que a dissipe.
Estamos sempre a aprender. Era eu essa tal criança que tinha o tempo do mundo nas minhas mãos e tanto aprendi nessa altura, sou agora a adulta que não vai nunca fechar as portas à aprendizagem das mais pequenas coisas, que o dia a dia nos traz.
Aprender a gerir o tempo é uma delas; aprender a controlar a minha impaciência é outra; aprender a manusear os mecanismos da calma,idem.
E todos todos todos os dias há algo novo para aprender e, porque não até, nos deslumbrar com.
A prova de fogo é ter um filho, como já aqui o referi várias vezes. E é essa a prioridade absoluta, senão é melhor não os ter, os filhos.
Como tal, estando a prioridade tratada, o resto pode esperar.

Porque a criança de há  anos atrás, que se vangloriava do tanto que fazia do tempo que era muito e só seu, continua "cá dentro" a querer que seja feita a sua vontade. Com toda a paciência, arte, gestão ou perícia que isso possa envolver.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

in my solitude



Não vou abordar aqui temas esotéricos, cada um acredita no que acredita e desde que não saiam feridas quaisquer susceptibilidades, há que respeitar as crenças de cada um.
Isto para dizer que, esta nossa casa emana uma boa energia que eu consigo sentir a "olho nu".
Não sei bem como explicar. É mais pequena, mas extremamente acolhedora, porque para mim, a importância não está na quantidade de metros quadrados que tem, mas sim num factor talvez denominado "alma" ou "essência", que no seu todo dá nisto: uma energia mesmo boa.
E eu senti isso desde a primeira vez que entrei dentro dela, ainda a minha essência não tinha feito parceria com a sua.
E como eu faço da minha casa,o meu recreio, por vezes basta-me só eu e ela para que saia revigorada.

Cumplicidade é isto.    










quinta-feira, 7 de agosto de 2014

das palavras difíceis


sou uma pessoa de palavra e de palavras.
gosto de me manter fiel a elas, às palavras, principalmente aquelas por mim proferidas.
no entanto há uma palavra que raramente pronuncio, porque tem uma carga demasiado forte, determinante e fatalista:
Adeus, é a palavra.
mesmo quando estive perante situações, ao longo da minha vida, que evidenciavam um adeus inevitável, não fui capaz de a dizer. Não sou capaz de a dizer.
talvez mais facilmente me desfaça em lágrimas, do que dizer adeus.
desde miúda que não lido bem com os fatalismos, não posso com atitudes profeticamente fatalistas que transcendem o simples pessimismo e até no vocabulário corrente (como é o caso de dizer adeus) não consigo visualizar.
contudo, considero adeus uma palavra bonita. tal como saudade.

prefiro não querer saber delas, nem de uma, nem de outra, beleza à parte.
este assunto remete-me sempre para uma amiga minha, que independentemente de nos vermos no dia a seguir, como 5 meses depois, despede-se sempre com um sorriso e um grande até já , não importa o quão longa é a extensão do .
o adeus é quase tão intrínseco à vida, como o próprio respirar.
não quero saber.
prefiro inspirar devagar e centrar-me no agora e na filosofia do até já.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

a strange kind of love





preciso das horas tardias da noite, em que me escapo para o silêncio.
preciso desse tempo, durante o qual todos os meus sentidos tacteiam, mesmo aquilo que jamais poderá ser tocado.
de forma alguma me sinto mais autêntica, na verdadeira essência do que sou, em qualquer outra hora do dia.
quero estar comigo, nem que seja por ínfimos minutos cronometrados e roubados à vida inevitável de todos os dias.
roubar vida à vida, para poder viver ainda mais
não se trata de egoísmo, mas de sensatez e amor-próprio
amar-me a mim, para de forma absolutamente resoluta, amar os outros e adquirir um considerável nível de tolerância indispensável no kit de sobrevivência.
preciso de me fazer submergir nas horas quase proibidas da noite e desta forma refazer-me, sem redundâncias inúteis e repetidas
preciso de olhar e divagar para além do negro do céu e com isso saber que me impregno de luz.

preciso da noite, tal como o sol precisa do dia.